O eleitor não assina um cheque em branco
Escolher um candidato não significa aceitar tudo o que ele faz. A responsabilidade de cobrar continua depois da vitória.

É impressionante como certas pessoas ficam exigentes quando o assunto é o adversário. Cobram explicações, encontram contradições, fazem contas. Mas basta o mesmo problema aparecer do seu lado para o rigor desaparecer.
A denúncia vira perseguição e a promessa abandonada, invariavelmente, ganha uma justificativa. A aliança antes considerada vergonhosa passa a ser necessária para governar. Sempre existe uma explicação, desde que o beneficiado seja o candidato certo.
Na reta final de uma eleição, esse comportamento se intensifica. Qualquer cobrança parece uma tentativa de ajudar o outro lado. Quem pergunta demais é tratado como ingênuo, desleal ou incapaz de perceber o que está em jogo.
Só que uma eleição importante exige mais atenção, inclusive com quem recebe o nosso voto.
É perfeitamente possível escolher Lula ou Flávio e continuar incomodado com suas decisões. É possível considerar um deles melhor para o país sem transformar cada declaração sua em verdade e cada crítica em conspiração.
O voto pode ser uma escolha por convicção, por comparação ou por falta de alternativa melhor. Nenhuma dessas razões obriga o eleitor a defender o indefensável.
Essa confusão fica especialmente ruim quando chega ao dinheiro público. O gasto que seria um absurdo no governo adversário vira investimento estratégico na gestão amiga. O cargo distribuído para acomodar um aliado ganha o nome de articulação. A falta de transparência deixa de preocupar quando a informação pode prejudicar o próprio grupo.
E assim o político aprende uma lição bastante confortável: para uma parte de seus apoiadores, basta apontar o inimigo para adiar qualquer explicação.
Isso empobrece a cobrança pública. O debate passa a depender menos da gravidade do problema do que da identidade de quem o provocou. Uma irregularidade ganha enorme repercussão, enquanto outra semelhante encontra silêncio e desculpas.
Quem vence uma eleição recebe autorização para exercer um mandato dentro das regras. Precisa prestar contas dos gastos, justificar suas escolhas, cumprir a lei e aceitar fiscalização. O apoio popular não elimina nenhuma dessas obrigações.
O eleitor também pode mudar de avaliação. Pode reconhecer um acerto de quem não escolheu e criticar um erro de quem ajudou a eleger. Pode concluir que uma promessa era inviável ou que uma decisão foi melhor do que esperava. Isso faz parte de acompanhar a política com alguma honestidade.
Mais difícil é admitir que a pessoa em quem depositamos esperança nos decepcionou. Ninguém gosta de sentir que errou. Mas continuar justificando tudo apenas para preservar a própria escolha cobra um preço alto: o governante deixa de precisar melhorar.
Depois da apuração, os apoiadores terão bons motivos para comemorar. No dia seguinte, precisam voltar a fazer perguntas.
O voto dura alguns segundos. O mandato, quatro anos. Convém não passar esse tempo inteiro procurando desculpas.