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DFArtigo de opinião

Na CLDF, mais do mesmo

Uma Câmara que deveria prestar contas atravessa a eleição com 17 mandatos preservados. A continuidade exige uma cobrança à altura.

Carlos Grillo|

Cadeira de couro verde com uma placa escrita Reservado em um plenário fictício.
Ilustração gerada por IA. Cena fictícia.

A Câmara Legislativa trocou apenas sete nomes. A maior parte da Casa continuará do jeitinho que era. Dos 20 deputados que pediram ao eleitor mais quatro anos de mandato, 17 conseguiram. Para uma legislatura que acumulou tantos motivos para ser cobrada, a eleição terminou confortável demais.

Os 29,2% de renovação ainda tornam a mudança maior no papel do que foi na disputa entre os atuais parlamentares. Quatro distritais concorreram a outros cargos. Apenas três tentaram ficar e foram derrotados. A maioria dos que quiseram permanecer encontrou a porta aberta.

O problema não é a reeleição em si. Experiência legislativa pode ser uma qualidade, inclusive. Um bom deputado não fica pior porque recebeu outro mandato, assim como um estreante não chega acompanhado de um certificado de competência. O problema é quando a capacidade de continuar no cargo parece mais sólida do que a capacidade de justificar sua ocupação.

O caso BRB-Master deveria pesar nesse balanço. Em agosto de 2025, a CLDF autorizou a aquisição de participação no Master pelo banco público. Na votação em segundo turno, foram 14 votos favoráveis e sete contrários. Houve oposição, houve alertas e, mesmo assim, houve uma maioria disposta a dar o aval. Essa diferença precisa ser lembrada: as responsabilidades não são iguais.

Em março de 2026, a própria Câmara ainda discutia requerimentos distintos para instalar uma CPI sobre as relações entre os bancos. A disputa política em torno da investigação virou parte do problema. Para o cidadão, deveria ser simples: dinheiro público em risco exige fiscalização, documentos e explicações. A conveniência das bancadas nem deveria entrar nessa conta.

Dentro da Casa, outra denúncia expôs a gravidade do ambiente institucional: a suspeita de espionagem na rede de computadores. A Presidência anunciou afastamentos e investigações internas. Suspeita não é condenação, claro, mas uma Câmara que precisa apurar se seus próprios sistemas foram usados para espionar já deve muita explicação para o contribuinte.

Seria injusto apagar todo o trabalho legislativo ou colocar os 24 deputados no mesmo saco. Houve quem cobrasse investigação e enfrentasse o governo. A crítica fica mais forte quando distingue essas atuações. Ainda assim, aprovar projetos e cumprir o calendário não basta para absolver politicamente uma instituição de suas falhas de fiscalização.

Também seria fácil culpar o eleitor. Mas, além de injusto, é inútil. Cada mandato se apresenta por sua própria vitrine: uma emenda, um atendimento, uma presença no bairro. Cabe perguntar quanto espaço sobra, nessa relação, para avaliar decisões que afetam o DF inteiro. O deputado acessível também precisa responder pelo voto que deu e pela fiscalização que exerceu ou deixou de exercer.

A eleição assegura o direito de continuar, mas não encerra a prestação de contas.

Os 17 reeleitos voltarão com experiência suficiente para dispensar qualquer período de adaptação. Já conhecem o orçamento, os instrumentos de investigação e o caminho dos gabinetes.

Precisam, agora, mostrar que conhecem também o limite da tolerância pública. Porque mais quatro anos de mandato não podem significar mais quatro anos das mesmas desculpas.

Fontes de apoio