Lula vence, o poder se divide e a democracia respira
O eleitor fortaleceu os conservadores no Congresso e manteve Lula na Presidência. Confundir essas escolhas com uma contradição é não entender o recado das urnas.

A direita tem motivos de sobra para comemorar. A esquerda, então, nem se fala. Quem precisa explicar a derrota é o bolsonarismo.
Lula venceu a eleição presidencial, mas encontrará um Congresso bastante fortalecido à direita. O país distribuiu poder entre campos adversários e recusou entregar o controle de tudo a um deles. Esse resultado deve incomodar aqueles que sonhavam governar sem resistência. Para a democracia, no entanto, é uma boa notícia.
A primeira conclusão é que a direita brasileira é maior do que a família Bolsonaro. Tem eleitores, lideranças e propostas que não cabem numa relação de obediência cega a um sobrenome. Sua força parlamentar convive, agora, com a derrota do candidato escolhido para levar esse sobrenome de volta ao Palácio do Planalto.
Isso, por si só, deveria ser suficiente para encerrar a pretensão de tratar todo conservador como propriedade eleitoral de uma família.
O bolsonarismo perdeu a disputa pela Presidência da República. Não desapareceu, não ficou sem representantes e tampouco deixou de mobilizar milhões de brasileiros. Seria um erro confundir sua derrota com o fim de sua influência. Mas perdeu justamente a disputa que permitiria reunir o comando do Executivo à força conquistada no Legislativo.
Há uma diferença gigante entre ter poder para fiscalizar um governo e dispor de poder suficiente para tentar enquadrar todas as instituições.
A vitória de Lula foi boa para o equilíbrio democrático porque preservou um contrapeso político relevante. Essa avaliação não envolve santificar o presidente, absolver o PT de seus erros ou fingir que o governo entregou tudo o que prometeu. Envolve, sim, reconhecer o valor de impedir que uma mesma força concentre poder demais para impor sua vontade.
O equilíbrio, entretanto, só serve ao país quando produz fiscalização e negociação. Um Congresso que cobra resultados cumpre seu papel. Um Congresso que sabota o governo para colher dividendos eleitorais obriga a população a pagar a conta de sua estratégia. Da mesma forma, um presidente que procura acordos faz política. Um presidente que trata qualquer limite como perseguição tenta fugir da responsabilidade de governar.
Os dois lados terão de conviver com a legitimidade do outro.
Minha leitura do resultado é que o brasileiro quer mudança, mas não aceita uma mudança qualquer. Quer segurança sem precisar abrir mão de direitos. Quer uma economia que funcione sem ser obrigado a aceitar a precarização da própria vida. Quer combater a corrupção sem conceder imunidade moral ao político de sua preferência.
Sobretudo, quer poder escolher de novo.
Democracia inclui a possibilidade de se arrepender, trocar o governo, cobrar o aliado e apoiar uma proposta do adversário. Um projeto político que exige fidelidade bovina trata o cidadão como alguém incapaz de pensar por conta própria.
O recado das urnas também alcança Lula. Vencer Flávio não transforma a insatisfação do brasileiro em entusiasmo nem apaga os problemas que alimentaram a candidatura adversária. O presidente foi escolhido para governar um país que continua dividido e exigente. Precisará responder ao custo de vida, à qualidade dos serviços públicos, à insegurança e aos entraves enfrentados por quem empreende ou deseja empreender.
O medo do adversário pode ajudar a ganhar uma eleição, mas não pode se tornar o programa de um mandato inteiro.
A esquerda fará mal se interpretar a vitória como autorização para repetir seus erros. A direita desperdiçará sua força se continuar subordinando o próprio futuro aos interesses dos Bolsonaro. Há espaço para uma oposição firme, conservadora e democrática, capaz de disputar o país sem transformar cada derrota numa suspeita contra as regras do jogo.
Essa direita tem uma oportunidade. Para aproveitá-la, precisará deixar de pedir licença a uma família.
O Brasil saiu das urnas com poder distribuído e responsabilidades compartilhadas. Nenhum campo recebeu autorização para fazer o que quiser. Todos terão de dialogar, conviver e prestar contas.
A direita ganhou espaço. A esquerda ganhou a Presidência. O bolsonarismo perdeu a tentativa de voltar ao comando do país.
O eleitor preservou uma coisa mais importante do que a vitória de qualquer um deles: o direito de continuar cobrando todos.