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BRArtigo de opinião

A polarização chegou ao Senado, e a disputa já começou

Discurso de Alcolumbre expõe o clima de confronto no plenário enquanto Rogério Marinho e Tereza Cristina já se colocam na disputa pela presidência do Senado em 2027.

Elisson Ferreira|

Elisson Ferreira, de óculos de armação escura, blazer azul e camisa branca, olhando para a câmera
Elisson Ferreira. Foto de arquivo. · Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal

Nos anos em que trabalhei no jornalismo esportivo, aprendi a perceber quando um técnico estava com o cargo ameaçado. Às vezes, o sinal aparecia numa entrevista. Lembro de um treinador de Brasília que, na véspera de um jogo importante, ligou para a redação para reclamar de um erro meu numa ficha técnica. Eu ainda estava começando na profissão. No dia seguinte, ele foi demitido pelos maus resultados.

Ali ficou claro para mim que a briga não era comigo. Era com o futebol, com o “sistema futebol”. A reclamação por causa da ficha técnica era apenas um sinal de um momento muito maior de pressão.

A política também tem seus sinais. No Senado, Davi Alcolumbre falou das urnas eletrônicas, criticou ataques pessoais e disse que o Brasil está profundamente dividido. Ao chamar a atenção de senadores de campos diferentes, citando nomes como Damares, Izalci, Jaques Wagner e Randolfe, deixou claro que seu recado atravessava as fronteiras entre governo e oposição. A troca com Carlos Portinho, que cobrou a votação da proposta sobre maioridade penal, deu ainda mais tensão à sessão. O contraste entre a fala exaltada de Alcolumbre e a cobrança direta de Portinho chegou a ter um aspecto quase cômico, mas revelou o clima de confronto que tomou conta do plenário.

O desabafo também acontece enquanto começa a disputa pela presidência do Senado, marcada para fevereiro de 2027. O PL lançou Rogério Marinho, e Tereza Cristina mantém sua candidatura. Há quem veja a divisão entre os dois como uma vantagem para Alcolumbre. Mas existe outra leitura: enquanto os dois nomes estiverem postos, podem atrair e consolidar votos que hoje poderiam estar com o atual presidente. Se Marinho e Tereza chegarem a um acordo depois, esses apoios talvez já estejam comprometidos, e Alcolumbre pode ter mais dificuldade para recuperá-los.

É possível ler o discurso como um sinal de que Alcolumbre sabe que sua permanência no comando não está garantida. Mas seria cedo para considerá-lo fora do jogo. Ele conhece os bastidores, sabe negociar e pode conquistar votos de diferentes campos. Na eleição da Mesa, o apoio anunciado publicamente nem sempre revela como será o voto secreto.

No futebol, um técnico que parece perto da demissão ainda pode virar o jogo. Em Brasília, também há espaço para reviravoltas. A disputa se decide no plenário, mas começa muito antes, nas conversas e nos acordos de bastidor. A sucessão já está em campo, e o resultado só aparece no apito final.

Elisson Ferreira — Jornalista e ex-candidato ao Governo do Distrito Federal