2030 começou ontem: um novo momento político chegou ao Brasil
2030 poderá ser a eleição que começará a colocar um ponto-final na polarização política que conhecemos.

As urnas se fecharam, os votos foram contabilizados e o Brasil escolheu seu presidente. Mas, na minha avaliação, o resultado de ontem representa muito mais do que a reeleição de Lula. Estamos diante do início de uma profunda reorganização da política brasileira.
Como jornalista e alguém que participou diretamente deste processo eleitoral, disputando o Governo do Distrito Federal, arrisco uma reflexão: 2030 poderá ser a eleição que começará a colocar um ponto-final na polarização política que conhecemos.
O primeiro sinal vem do próprio bolsonarismo. Foram duas derrotas presidenciais consecutivas, em 2022, com Jair Bolsonaro, e agora, em 2026, com Flávio Bolsonaro. Isso não significa o desaparecimento desse campo político, que continua representando milhões de brasileiros. Mas pode significar o início da perda de sua exclusividade sobre o eleitorado conservador.
Deputados, senadores e outras lideranças que construíram suas trajetórias apoiados no sobrenome Bolsonaro poderão buscar novos caminhos. Afinal, a sobrevivência política muitas vezes fala mais alto do que a fidelidade pessoal.
E insistir em discursos de anulação das eleições, sem fundamentos concretos, não parece ser o melhor caminho para quem precisa começar a construir 2030. Enquanto se questiona o passado, outros estarão organizando o futuro.
Nesse cenário, Michelle Bolsonaro surge como alternativa para preservar a força política da família. Eleita senadora pelo Distrito Federal, terá maior protagonismo institucional. Entretanto, precisará enfrentar um desafio que considero ainda maior: as disputas internas com os filhos de Jair Bolsonaro. Será que aceitariam entregar à madrasta o protagonismo desse movimento?
Tenho minhas dúvidas.
Do outro lado, a esquerda também enfrentará seu grande teste: sobreviver eleitoralmente sem Lula como candidato.
Reeleito, Lula não poderá disputar um terceiro mandato consecutivo. E, embora continue sendo a maior liderança de seu campo político, não possui um sucessor natural com a mesma força eleitoral.
Fernando Haddad, Camilo Santana e Rafael Fonteles aparecem como possibilidades dentro do PT. Fora dele, João Campos, André Janones e Guilherme Boulos representam outras vertentes que poderão disputar esse espaço. Até Flávio Dino, hoje no Supremo Tribunal Federal, poderia voltar a ser lembrado em especulações futuras, embora isso dependesse de uma improvável mudança de trajetória.
O fato é que o eleitorado progressista também precisará descobrir novos caminhos.
Mas acredito que a principal novidade poderá estar no ressurgimento de uma direita não subordinada ao bolsonarismo e de uma centro-direita capaz de dialogar com diferentes setores da sociedade.
Tarcísio de Freitas, Eduardo Leite, Aécio Neves, Ronaldo Caiado, Simone Tebet e Raquel Lyra são nomes que merecem atenção. Ratinho Júnior dependeria de uma revisão de sua decisão de se afastar da política.
Acrescento também Cleitinho Azevedo, eleito governador de Minas Gerais, que protagonizou um gesto simbólico justamente no domingo da eleição. Em Divinópolis, reuniu um eleitor petista e outro bolsonarista e pediu que se abraçassem, defendendo o respeito às diferenças políticas.
O gesto, embora simples, carrega uma mensagem importante: adversários políticos não precisam ser inimigos. Cleitinho apoiou Flávio Bolsonaro, mas defendeu o diálogo com qualquer vencedor da eleição presidencial. É uma liderança que merece ser observada, especialmente pela representatividade de Minas Gerais no cenário nacional.
Nesse mesmo campo, observo com interesse Renan Santos. Sua candidatura pelo Missão mostrou que existe espaço para uma direita com identidade própria, fora da estrutura bolsonarista. Mas seus próximos passos serão decisivos. Renan continuará sendo o candidato natural do MBL e do Missão? Ou o fortalecimento do movimento abrirá espaço para outras lideranças, como Kim Kataguiri?
Assim como será interessante observar o futuro de Augusto Cury, que surpreendeu ao conquistar milhões de votos em sua primeira experiência presidencial.
Não estou dizendo que todos esses nomes serão candidatos. Muito menos que possuem a mesma força eleitoral. Mas acredito que os próximos meses começarão a revelar um cenário com mais alternativas e novas composições políticas.
E aqui está minha principal convicção: 2030 poderá ser a eleição em que o Brasil deixará de depender exclusivamente de dois polos políticos para escolher seu presidente.
Não significa o fim das divergências entre esquerda e direita. Significa a possibilidade de termos vários projetos nacionais verdadeiramente competitivos. A polarização ainda é forte, como demonstraram os resultados deste ano, mas sua continuidade não é inevitável.
Imaginem um cenário com Tarcísio, Michelle Bolsonaro, Cleitinho, Renan Santos, Eduardo Leite, Caiado, Simone Tebet, Raquel Lyra, Haddad, Camilo Santana, João Campos e tantos outros disputando o espaço político nacional.
Talvez nem todos estejam nas urnas. Mas a quantidade de lideranças com possibilidades de participar desse processo já demonstra o tamanho da reorganização que poderá ocorrer.
A política é dinâmica. Quatro anos representam uma eternidade. Lideranças surgem, alianças se desfazem e antigos adversários descobrem interesses comuns.
Talvez estejamos justamente diante desse novo momento.
E, para encerrar, quero lembrar de um personagem de quem considero que pouco se fala quando o assunto é sucessão presidencial.
Um político experiente, que governou São Paulo, disputou a Presidência, construiu pontes entre antigos adversários e ajudou Lula a vencer duas eleições. Alguém que teve participação importante nas negociações econômicas e comerciais com os Estados Unidos, defendendo os interesses brasileiros.
Uma liderança que conhece a direita, dialoga com a esquerda e possui experiência suficiente para transitar pelo centro.
Se 2030 poderá ser a eleição da moderação, do diálogo e da reconstrução de pontes políticas, por que ignorar alguém que já demonstrou essa capacidade?
E por que não Geraldo Alckmin?
Elisson Ferreira — Jornalista e ex-candidato ao Governo do Distrito Federal