A direita esperava um líder. Flávio deixou o país
Fuga para os Estados Unidos surpreendeu o comando da campanha e interrompeu a tentativa de transformar a votação do senador em liderança da oposição.

Na segunda-feira, Rogério Marinho conversava com Flávio Bolsonaro sobre o papel que ele deveria assumir depois da derrota para Lula: liderar a oposição, organizar aliados e representar os quase 60 milhões de eleitores que votaram nele. No dia seguinte, o coordenador da campanha foi surpreendido pela notícia de que o senador havia deixado o Brasil.
A distância entre essas duas cenas ajuda a explicar o desconforto provocado pela fuga entre integrantes da direita. A derrota eleitoral ainda estava sendo assimilada quando o candidato em torno do qual partidos e lideranças haviam se reunido tomou uma decisão que, segundo Marinho, não foi comunicada ao comando político.
Flávio desembarcou com a família em Miami nesta quarta-feira, 28 de outubro, depois de passar pela Argentina e pelo Equador. A saída ocorreu apesar da determinação judicial que o impedia de deixar o país e exigia a entrega dos passaportes. Na segunda-feira, ele havia afirmado que permaneceria no Brasil.
A surpresa veio de dentro
A manifestação de Marinho tem peso porque parte de quem coordenou a campanha e participava das conversas sobre seus próximos passos.
O senador relatou ter recebido, na manhã de terça-feira, uma mensagem na qual Flávio dizia que iria “dar um tempo” e conversaria depois com os aliados. Não era essa a expectativa construída na véspera, quando os dois discutiram a liderança da oposição.
A votação oferecia a Flávio condições de permanecer no centro da política nacional mesmo derrotado. Havia um Congresso fortalecido à direita, governadores aliados e uma base eleitoral expressiva a representar. A saída do país obriga esse grupo a reorganizar seus planos antes mesmo do início do próximo mandato presidencial.
O desconforto não significa, porém, um rompimento geral. Marinho também criticou as medidas judiciais contra o aliado. Sua reação combina surpresa com defesa política, mostrando a dificuldade de quem precisa explicar uma decisão da qual afirma não ter participado.
Entre a solidariedade e a cobrança
Uma parte dos apoiadores apresenta a saída como proteção contra o que considera perseguição judicial. Outra questão, igualmente política, permanece: como exercer a liderança de uma oposição que precisa atuar diariamente no Congresso, nos estados e nas negociações em Brasília?
O senador eleito Carlos Jordy defendeu publicamente a ida de Flávio aos Estados Unidos. A reação mostra que a fuga não produziu uma resposta única entre seus aliados.
Para os dirigentes que esperavam vê-lo à frente da oposição, entretanto, a decisão cria um problema imediato. Além de organizar a atuação contra o governo Lula, terão de lidar com as consequências de uma escolha feita pelo próprio candidato e explicar aos apoiadores qual será seu papel daqui para a frente.
O espaço começa a ser disputado
Tarcísio de Freitas aparece como um dos principais beneficiários desse rearranjo. Segundo a CNN, aliados da família Bolsonaro e integrantes do Centrão veem o governador de São Paulo como o nome mais bem posicionado para ocupar espaço na liderança da direita.
Isso ainda não representa uma sucessão definida. Deputados, senadores e dirigentes partidários também terão protagonismo, e a influência da família Bolsonaro não desaparece com a saída de Flávio. Mas o episódio antecipa uma discussão que poderia levar meses: quem tem condições de organizar esse campo político e construir sua próxima candidatura presidencial?
A investigação e o custo político
Flávio é investigado por suspeita de lavagem de dinheiro em um inquérito que também envolve o advogado Willer Tomaz. Ambos negam irregularidades. A existência da investigação não equivale a uma condenação, assim como a alegação de perseguição não elimina a obrigação de cumprir decisões judiciais.
O custo político da fuga já aparece nas declarações de surpresa e na movimentação por novas lideranças. Para uma parcela da direita, a expectativa depois da eleição era ter um candidato derrotado disposto a permanecer, reorganizar forças e enfrentar o governo.
Flávio escolheu deixar o país. Seus aliados ficaram com a tarefa de decidir quem assume a liderança e de explicar essa escolha aos eleitores.