Governar não cabe em um vídeo
A comunicação direta aproxima o poder das pessoas. Mas administrar Minas exige decisões que continuam valendo depois que a câmera desliga.

Um vídeo pode mostrar um problema em poucos segundos. A fila, o buraco, o desperdício, o privilégio. Quando alguém fala de um jeito que as pessoas entendem, a cobrança ganha força. Isso tem valor. O serviço público não precisa de uma linguagem que afaste justamente quem depende dele.
Cleitinho construiu sua projeção falando diretamente com o público. Sua chegada ao governo coloca essa capacidade diante de uma tarefa diferente: responder pelos problemas que antes podia apontar de fora.
Um governador não escolhe apenas o que merece indignação. Precisa decidir o que será feito, quem vai executar, quanto vai custar e qual necessidade ficará para depois. E terá de explicar essas decisões também a quem sair contrariado.
Há um risco em confundir a exposição de uma falha com sua solução. Visitar um hospital pode revelar um atendimento ruim. Resolver o problema exige conhecer a escala das equipes, os contratos, os estoques, a rede de encaminhamento e o dinheiro disponível. A visita pode durar uma manhã. O trabalho leva muito mais tempo.
Isso não é argumento para afastar o governador da rua ou das redes. Pelo contrário. Quem conhece a força da comunicação tem condições de usá-la para explicar escolhas difíceis, apresentar resultados verificáveis e admitir o que ainda não conseguiu entregar.
A cobrança precisa alcançar também o que rende pouca imagem. A manutenção feita antes da pane. O contrato corrigido antes do prejuízo. O planejamento que evita inaugurar uma unidade sem profissionais para trabalhar nela. Uma administração competente nem sempre produz uma cena extraordinária. Muitas vezes, faz o básico funcionar todos os dias.
A Assembleia terá seu papel. Fiscalizar não pode depender da popularidade do governador nem da quantidade de seguidores de quem faz a cobrança. Apoiar o governo não dispensa um deputado de pedir documentos e questionar despesas. Fazer oposição também não o autoriza a torcer pelo fracasso de um serviço.
Para a imprensa, vale o mesmo cuidado. A facilidade de encontrar uma declaração forte não pode determinar a cobertura. O vídeo precisa ser confrontado com o contrato, o anúncio com a execução, a promessa com o orçamento.
Cleitinho tem o direito de manter o estilo que o tornou conhecido. O cidadão não está exigindo que ele passe a falar difícil ou se esconda atrás de uma mesa.
Está exigindo que a proximidade sobreviva ao exercício do poder. Que a disposição para cobrar se transforme em disposição para responder. E que, depois de mostrar o problema, o governo consiga voltar ao mesmo lugar para mostrar o serviço funcionando.