Celina conquista mandato próprio e terá de transformar vitória em autonomia
Reeleita com 57,18% dos votos válidos, governadora consolidou uma ampla aliança. Agora precisa dar identidade ao governo e encontrar uma saída para o BRB que proteja os serviços públicos e a população.

Celina Leão (PP) saiu das urnas com mais do que a confirmação do favoritismo. Ao vencer Leandro Grass (PT) no segundo turno, a governadora conquistou nas urnas o mandato que começou a exercer após a saída de Ibaneis Rocha (MDB). É uma vitória política expressiva, construída em meio à crise do BRB e a uma disputa difícil sobre o legado do governo do qual fez parte.
Com a apuração concluída, Celina recebeu 57,18% dos votos válidos. Grass teve 42,82%. A diferença de 14,36 pontos percentuais dá à governadora uma base importante para iniciar o próximo mandato. Agora vem a parte que não se resolve com o resultado eleitoral: transformar esse capital político em soluções para o Distrito Federal.
Uma campanha que atravessou a crise
O tamanho da vitória começou a ser desenhado no primeiro turno. Celina recebeu 49,93% dos votos válidos e ficou a apenas 168 votos da maioria necessária para vencer naquela etapa. Grass avançou com 34,47%.
No segundo turno, ela conseguiu preservar a liderança mesmo sob críticas à situação do BRB, à saúde e à gestão herdada de Ibaneis. A campanha combinou a defesa de obras e ações do governo com o esforço de apresentar Celina como uma liderança com caminho próprio.
A aliança com nomes fortes da direita também pesou na montagem de sua base. Michelle Bolsonaro, eleita senadora, esteve ao lado da governadora no encerramento da campanha. Esse apoio ajudou a dar unidade ao campo conservador, ainda que não seja possível medir isoladamente quanto cada aliado acrescentou ao resultado.
A vitória mostra que Celina conseguiu reunir apoio suficiente para atravessar uma eleição marcada por cobranças sobre o governo. Não significa, porém, que os eleitores tenham deixado de se preocupar com os problemas levantados durante a disputa.
De vice a protagonista
Celina foi eleita vice-governadora na chapa de Ibaneis em 2022 e assumiu o comando do DF em março de 2026, depois da saída do titular. Durante a campanha, procurou marcar distância do antecessor, especialmente em relação à crise do banco.
Essa separação será mais exigente no governo do que no discurso. O vínculo com Ibaneis faz parte de sua trajetória e da história recente da administração. A autonomia que importa agora terá de aparecer nas escolhas de equipe, nas prioridades, na forma de lidar com aliados e na disposição de apurar decisões anteriores quando necessário.
Ter sido eleita por conta própria fortalece Celina para fazer essas escolhas. Também coloca sobre ela a responsabilidade pelos resultados. O próximo governo poderá aproveitar o que funcionou, corrigir o que precisa ser corrigido e explicar com clareza cada decisão à população.
O BRB e a conta do brasiliense
A recuperação do BRB será um dos testes mais difíceis. A crise se agravou após operações relacionadas ao Banco Master, investigadas pelas autoridades. O governo do DF busca uma operação de crédito de até R$ 6,6 bilhões para apoiar o banco, mas as condições e garantias ainda são objeto de disputa. A União contestou no STF o pedido para garantir o financiamento.
Celina disse durante a campanha que a privatização não estava em discussão e que havia alternativas em negociação. A existência dessas tratativas, contudo, não resolve por si só uma pergunta central: quanto custará a solução, quem assumirá os riscos e quais serão os efeitos para as contas do DF?
O banco tem relevância para servidores, clientes e para a economia local. Preservar sua capacidade de funcionar é importante. Isso exige, ao mesmo tempo, transparência sobre a situação financeira, responsabilidades e condições de qualquer ajuda. Uma operação que transfira riscos elevados ao orçamento pode acabar limitando recursos para saúde, educação e outros serviços.
A governadora também precisará reconstruir a confiança na instituição. Publicar informações claras, fortalecer os controles e dar explicações acessíveis à população são parte da solução, ao lado das negociações financeiras. A investigação sobre o que aconteceu deve seguir seu curso.
Uma vitória que abre caminho para cobrança
Celina terá de lidar ainda com a pressão por atendimento de saúde, mobilidade, segurança e execução das obras prometidas. São desafios diferentes, mas ligados por uma mesma exigência: mostrar que o governo consegue entregar resultados sem perder de vista o equilíbrio das contas.
A eleição lhe deu força e legitimidade para conduzir essa agenda. Ao escolher Celina, a maioria dos eleitores ofereceu à governadora a oportunidade de imprimir sua marca. O tamanho de sua vitória será medido, daqui para a frente, pela capacidade de enfrentar o passado, proteger o presente e deixar um governo melhor para o futuro do DF.