Brasília precisa funcionar além do Plano Piloto
Um governo deve ser avaliado também pelo tempo que as pessoas perdem para acessar aquilo que deveria estar perto.

Quem sai cedo de casa e volta tarde conhece uma Brasília que aparece pouco nas imagens usadas para representar a cidade. É a Brasília do ponto de ônibus, da conexão perdida, da caminhada por uma calçada que termina antes do destino.
O problema fica ainda maior quando essa mesma pessoa precisa resolver alguma coisa durante o expediente. Uma consulta, um documento, uma vaga, um atendimento. Cada deslocamento disputa espaço com o trabalho, a renda e o cuidado com a família.
Governar o Distrito Federal exige prestar atenção nessa rotina.
Uma obra pode ser bonita na fotografia e pouco útil para quem precisa dela. Um equipamento público pode ser inaugurado e continuar difícil de acessar. Um serviço pode existir no organograma sem funcionar no horário em que a população consegue procurá-lo.
A avaliação do governo precisa chegar a esse nível de detalhe. Quanto tempo leva? Quantas viagens exige? A pessoa encontra atendimento quando chega? Consegue voltar para casa com o problema resolvido?
Brasília tem uma relação particular com a aparência. A arquitetura, os monumentos e os grandes espaços fazem parte de sua importância. Preservá-los é uma obrigação. Mas a vida de quem mora aqui não cabe inteira nesse cartão-postal.
O estudante precisa chegar à escola. O trabalhador precisa de transporte que caiba na jornada. Uma pessoa com deficiência precisa atravessar a rua com segurança. A mãe que acompanha o filho a uma consulta precisa saber se conseguirá voltar a tempo do próximo compromisso.
Essas necessidades deveriam orientar as prioridades antes da escolha da obra que renderá a melhor cerimônia.
Também precisamos abandonar a ideia de que todas as regiões podem ser atendidas do mesmo jeito. As distâncias, os trajetos e a disponibilidade de serviços mudam. Um planejamento que ignora essas diferenças pode distribuir recursos sem reduzir dificuldades.
É por isso que inaugurações e valores gastos não bastam para medir um mandato. Precisamos acompanhar o tempo de espera, a regularidade do atendimento, as condições de acesso e o funcionamento depois que as autoridades vão embora.
O próximo governador encontrará problemas que não serão resolvidos em poucos meses. Ninguém razoável espera isso. O que se pode exigir desde o começo é uma escolha clara sobre quem terá prioridade quando os recursos e o tempo forem limitados.
A resposta aparece no orçamento, nos contratos, na manutenção e no lugar onde os serviços chegam primeiro.
Brasília precisa funcionar para quem vive longe do gabinete. E um bom governo deve conseguir demonstrar essa melhora na rotina de quem quase nunca aparece na fotografia oficial.