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GOArtigo de opinião

Vitória não é salvo-conduto

Daniel Vilela recebeu apoio para governar. A força das urnas aumenta sua responsabilidade e exige independência de quem deve fiscalizá-lo.

Carlos Grillo|

Ilustração gerada por IA de um gabinete com a porta de madeira entreaberta, confetes dourados no chão, pastas empilhadas sobre a mesa e um retrato de Daniel Vilela pendurado na parede
Ilustração gerada por inteligência artificial; cena fictícia, não é foto real do gabinete de Daniel. · Ilustração: IA/Parlatório

Uma vitória no primeiro turno permite ao governador respirar antes mesmo de começar o mandato. Dispensa mais três semanas de campanha, facilita a montagem da equipe e atrai aliados que, até a véspera, ainda estavam fazendo contas. Para quem venceu, é uma vantagem considerável. Para o cidadão, só terá valor se melhorar o governo.

Daniel Vilela saiu da eleição em Goiás com força política. Tem legitimidade para conduzir sua gestão e defender as escolhas que apresentou ao eleitor. Mas a vitória não transforma essas escolhas em decisões imunes a questionamento. Tampouco autoriza tratar toda cobrança como inconformismo de quem perdeu.

É justamente quando um governo reúne muito apoio que a fiscalização precisa funcionar melhor. Prefeitos querem recursos. Deputados querem atender suas bases. Partidos querem participar da administração. Tudo isso faz parte da política. O problema começa quando ninguém quer fazer a pergunta que pode desagradar ao governador.

Quem vai cobrar uma obra atrasada se todos ajudaram a anunciá-la? Quem vai questionar um contrato se a cobrança puder custar espaço no governo? Quem vai apontar uma prioridade errada quando a versão oficial já tiver sido repetida por toda a base?

A Assembleia Legislativa tem uma responsabilidade especial nessa relação. Um deputado pode apoiar Daniel e votar contra uma proposta do Executivo. Pode integrar a base e exigir documentos. Pode destinar emendas a um município e cobrar a qualidade do serviço que recebeu o dinheiro. Não há contradição nisso. Há exercício do mandato.

A independência parlamentar se mede nessas situações, quando fiscalizar tem algum custo. Fazer discurso sobre transparência é fácil. Difícil é insistir na informação que o próprio aliado prefere não fornecer.

Para Daniel, a tentação será interpretar a votação como aprovação antecipada de seu governo. É um erro comum entre vencedores. O eleitor decide com base no que conhece, no que espera e nas alternativas disponíveis. Não está assinando em branco todas as decisões dos quatro anos seguintes.

Na saúde, uma entrega precisa ser medida pelo atendimento que passou a existir. Na educação, pelo que mudou dentro das escolas. Na infraestrutura, pela obra concluída e em condições de uso. Anúncios ajudam a comunicar o trabalho, mas não podem ocupar o lugar dele.

O orçamento será um teste concreto. É ali que as prioridades deixam de ser promessas e começam a disputar dinheiro. Toda escolha merece explicação, sobretudo quando uma necessidade fica para depois. Governar também é dizer o que não será possível fazer e assumir a responsabilidade por essa decisão.

Uma gestão segura do apoio que recebeu deveria aceitar esse escrutínio com naturalidade. Responder a uma pergunta incômoda não diminui a autoridade do governador. Corrigir uma decisão também não. A fragilidade aparece quando o poder precisa desqualificar quem cobra para evitar discutir o que foi cobrado.

O cuidado vale para a imprensa. A popularidade de um governante pode explicar o ambiente político, mas não serve como critério para decidir o que merece investigação. Um contrato continua merecendo exame mesmo quando o governo tem boa avaliação. Uma fila continua sendo um problema mesmo quando quem espera nela votou no vencedor.

Daniel tem a oportunidade de usar sua força política para enfrentar decisões difíceis, organizar prioridades e entregar resultados. É para isso que ela deve servir.

Goiás escolheu quem vai governar. A partir daí, o trabalho de acompanhar, questionar e fiscalizar continua. Inclusive para quem apertou o mesmo número na urna.