A dívida coloca Cleitinho diante de Lula antes mesmo da posse
Governador eleito prometeu buscar novas condições de pagamento para Minas. Simões questiona a proposta, mas a própria gestão atual ainda tenta resolver impasses com a União.

Cleitinho Azevedo (Republicanos) venceu a eleição prometendo tentar renegociar a dívida de Minas Gerais, independentemente de quem chegasse à Presidência. Com Lula reeleito, o governador eleito terá de discutir com o petista uma das questões que mais limitam as finanças do estado.
A promessa já virou motivo de provocação na transição. Na segunda-feira (26), Mateus Simões (PSD) desejou sorte ao sucessor e questionou o espaço para uma nova negociação, sob o argumento de que o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados, o Propag, já prevê juros reais zerados para Minas.
A cobrança coloca Cleitinho diante da necessidade de detalhar sua proposta. Mas a discussão não termina na taxa de juros: o acordo envolve correção monetária, pagamentos, investimentos obrigatórios e patrimônio estadual oferecido para reduzir a dívida.
Juro zero não significa dívida congelada
Segundo a Secretaria de Fazenda de Minas, o estado aderiu ao Propag em 31 de dezembro de 2025. O saldo reconhecido no contrato era de R$ 179,3 bilhões, apurado em 1º de dezembro daquele ano, com refinanciamento em 360 meses.
As condições incluem atualização pelo IPCA e juros reais de 0% ao ano. Portanto, o saldo continua sujeito à correção pela inflação.
Para obter essas condições, Minas ofereceu ativos suficientes para amortizar 20% da dívida. Também assumiu compromissos de aportes anuais ao Fundo de Equalização Federativa e de investimentos em áreas estratégicas, cada um correspondente a 1% do saldo devedor.
É nesse conjunto de obrigações que a promessa de Cleitinho terá de ganhar conteúdo. Será necessário explicar quais condições pretende alterar, por qual instrumento e com que efeito sobre o orçamento.
O acordo atual também tem pendências
Simões questiona a possibilidade de renegociar, mas sua própria administração ainda cobra uma resposta da União sobre os ativos oferecidos para abater o débito.
Na mesma entrevista em que comentou a promessa de Cleitinho, o governador afirmou que prepara uma ação judicial para questionar a demora na análise desses bens. Segundo ele, a indefinição gera um custo de quase R$ 80 milhões por mês para o estado. O valor é uma estimativa apresentada pelo governo mineiro.
A pendência mostra que aderir ao programa e concluir todas as etapas de sua execução são coisas diferentes. Antes de discutir novas condições, a próxima gestão precisará conhecer o estágio das negociações, os ativos apresentados e os efeitos financeiros de sua eventual aceitação.
O orçamento aumenta a pressão
O projeto de orçamento para 2027 prevê déficit de aproximadamente R$ 10,5 bilhões. Trata-se de uma projeção, que pode mudar durante a execução, e não de um prejuízo já registrado.
Segundo apuração da Itatiaia, aliados de Cleitinho temem que o desequilíbrio dificulte o cumprimento das exigências do Propag. Essa é uma preocupação da equipe de transição, não uma confirmação de que Minas será excluída do programa.
O desafio será combinar o pagamento da dívida com os compromissos de saúde, educação, segurança e remuneração dos servidores. Uma negociação que alivie despesas pode abrir espaço no caixa, mas seus efeitos dependerão das condições e obrigações assumidas.
Conversar não significa aderir
Cleitinho apoiou Flávio Bolsonaro na disputa presidencial, mas sinalizou que manterá diálogo com o governo federal. Simões, por sua vez, tem cobrado uma definição sobre a postura política do sucessor diante de Lula.
A negociação da dívida será um teste dessa relação. Defender os interesses de Minas exigirá interlocução com Brasília, sem que isso implique abandonar posições políticas ou garantir concordância entre os governos.
Para Cleitinho, o próximo passo é transformar a promessa em uma proposta verificável. Para o mineiro, a medida do sucesso será o efeito sobre as contas e os serviços públicos. A provocação da transição rende manchete. Uma negociação bem conduzida precisa render resultados.